Engolindo pessoas

E assim ela foi, ano após ano, subindo um degrau.
Sabia que não brilhava naturalmente; que quando chegava ninguém notava sua presença. Sabia que ninguém pensava nela em momentos de carinho ou saudades.
Sabia que seu abraço não tocava nenhuma alma e suas raríssimas lágrimas não convenciam a ninguém. Seu coração batia em vão e seu toque era frio como o gelo. O gelo ao menos derrete em contato com o calor, mas ela…  nada fazia seu coração derreter. Era uma humana vazia de sentimentos.
As únicas coisas que faziam seu coração bater eram números: os números de relatórios que ela entregava depois de ter sido contratada para mudá-los. E que consequentemente mudavam também os números de sua conta bancária.
Então assim ela foi. Aumentando números, levando algumas pessoas consigo, derrubando outras. Assim ela seguiu, engolindo pessoas. Todos aqueles que estiveram ao seu lado nessa subida, em determinado momento da trajetória foram deixados para trás; quando ela não precisou mais deles.
Pessoas que poderiam acrescentar seus números de alguma forma foram poupadas e falsamente acomodadas em seu coração de gelo. Quando deixaram de somar aos seus números, ela os engoliu, tirando-os da sua frente.
Ano após ano ela continuou engolindo pessoas. Engoliu tanto que chegou um momento que ela estava só; tinha engolido todos ao seu redor, inclusive sua família. Nesse momento ela se deu conta de como tinha sido sua trajetória. Agora não lhe restava mais nada além dos números ali amontoados dentro dela. E ao invés de fazerem alguma diferença em sua vida, agora eles pesavam.

E ela já não tinha mais ninguém para ajudá-la a carregá-los, pois já tinha engolido todo mundo. Mas nem assim ela se abalou. A única coisa que a afetou foi o fato de que ela nunca mais poderia fazer aquilo que sabia fazer de melhor; que nunca mais poderia continuar engolindo pessoas!
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O pensamento

Seria bom se pudéssemos controlar o pensamento.  Inclusive o alheio. Sair do pensamento de uns, entrar no de outros…
Porém, se não conseguimos nem controlar os próprios pensamentos, como vamos controlar o dos outros? Não conseguimos deixar de pensar no que queremos e pensar no que devemos. Mas, se pelo menos pudéssemos controlar o dos outros, ah que bom seria!
Bom, se pudéssemos controlar o que pensam os outros, também teríamos os nossos pensamentos controlados. E daí não seriam nossos pensamentos, mas sim o de outro alguém em nossa mente. E assim faríamos a vontade do outro e não a nossa. E controlando o pensamento alheio, o outro também faria nossa vontade.
Seria o caos dos pensamentos, o caos das vontades.
Pensando bem, que bom que eu posso pensar o que quiser, assim como você. Ou será que isso não é bom? Afinal, existem pensamentos que nem sempre a gente controla e isso é uma pena. E que pena que não podemos entrar e sair do pensamento de quem quisermos.
Ah se pudéssemos controlar o pensamento…
Mas já que não podemos, já que eu não posso ler o pensamento de ninguém, me responda:
E você, está pensando em quê agora?

Os sonhos

 


Quanto tempo perdido. Quantos planos desfeitos. Quantos sonhos espatifados contra a realidade.
Quantas lágrimas roladas. Quantas noites sem dormir. Quanta tristeza apertando o peito.  E tudo isso porque um sonho não se realizou…
Quão importantes são os sonhos! Por isso é importante que sejam concretizados, para termos a sensação de plenitude.
Mas, e se um sonho acaba? O que fazer?  Parar de sonhar?  Colocá-lo numa gaveta, numa caixa, dentro do coração e trancá-lo a sete chaves?
O jeito é começar a sonhar de novo. Mesmo que com dor no coração, mesmo que com o pensamento pesado.
Às vezes é preciso pisotear o próprio sonho para ter certeza que ele não vai mais viver dentro da gente e até para podermos iniciar um novo sonho.
Quantas vezes temos que enterrar um sonho por mais valioso que ele possa ser, para outros mais valiosos nascerem e assim se tornarem realidade?
O fato é que eles vêm e vão.
Eles não deixam de existir a não ser que a gente pare de sonhar…
E você?
Deixou de Sonhar? 

Na calada da noite ela vem





Na calada da noite ela vem…

Eufórica, incontrolável, inevitável. Ela vem me tirar do meu descanso, do meu sono profundo, da minha paz.
Ela vem mas eu tento renegá-la. Tento não ceder, tento fazê-la ir embora e me deixar repousar, mas ela não vai. Fica lá, latente, teimosamente me perturbando. Luto o quanto posso, até me render. Então me levanto, acendo a luminária e me entrego. É rápida sua aparição. Mas depois que ela se vai, sei que ceder foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Ela me aparece durante o dia também, nos mais variados locais e situações, mas é à noite que ela consegue me perturbar. Porque é o momento que mais quero ficar em paz, só, esquecer de tudo e repousar minha mente de qualquer outro pensamento. Mas ela sempre surge nesse momento.
Hoje aprendi a não recusá-la e sempre depois que me rendo ao seu chamado, fico repleta de alegria. Jamais irei recusá-la novamente, pois sem ela não sou nada. Ninguém o é.
Todos os textos que escrevo aqui, vem dela.  De vez em quando, de uma forma ou de outra, ela aparece para todos. Sim, cada um tem a sua, a sua INSPIRAÇÃO.
Você achou que fosse o quê, fome?