O homem que pensava demais

Sentado na ponta da ponte ele pensava…
Pensava se deveria mergulhar de cabeça naquele rio gelado ou esperar um pouco mais para a água esquentar.
Também pensava que se mergulhasse devagar poderia se acostumar com a água gelada aos poucos e criar coragem para mergulhar de cabeça finalmente. Resolveu esperar um pouco mais.
Enquanto esperava começou a pensar na sua vida; se deveria ter largado seu emprego para tentar a sorte em outro lugar, onde não conhecesse ninguém nem tivesse nada garantido.
Pensou se deveria ter ligado para aquela moça de quem sempre gostou e convidá-la para sair.
Com lágrimas nos olhos, pensou também se deveria ter procurado aquele amigo com quem tinha brigado e tentar uma reconciliação e que o orgulho não deixara.
O pensamento mais conflitante que o tomou foi se deveria ter tido filhos para agora estarem na beira da ponte decidindo se enfrentariam a água gelada juntos. 
Lembrou que queria ter feito aquela tatuagem que sonhara desde criança e que não fez porque não sabia se iria se cansar dela um dia.
Permaneceu lá, pensando em tantas coisas que quis fazer durante sua vida, mas que não fez porque seriam decisões sérias demais, algo definitivo demais, e porque era orgulhoso demais.
Tomar uma decisão qualquer e realmente tornar aquilo possível o amedrontava e então pensou que deveria esperar um pouco mais para ter certeza se seria o caminho certo a seguir.
E continuou pensando. Pensou tanto, por tanto tempo, que a água do rio congelou e não daria para mergulhar mais nela mesmo. E sendo assim, resolveu se levantar e talvez fazer algo em que tinha pensado durante esse tempo.
Teve um pouco de dificuldade para se levantar, sentindo o peso da idade no corpo. Ele pensou tanto que a vida passou e ele a perdeu lá, só pensando.
E o último pensamento que lhe veio à cabeça foi: eu devia ter mergulhado de cabeça, ao invés de só pensar em fazê-lo.
Antes de partir ele lhe pergunta: e você, vai mergulhar de cabeça ou esperar a água congelar?

À procura do amor

Tem que ter algum lugar no mundo para mim.
Algum lugar que eu encontre o amor.
O amor do qual eu sempre fugi ao mesmo tempo em que o procurei.
O amor que esteja pronto para mim, assim como agora estou pronta para ele.
Rodei o mundo sabendo que não iria encontrá-lo, porque no fundo eu não queria encontrá-lo no mundo.
Não queria que fosse alguém cujo coração batesse em outro fuso horário, em outras ruas de outras cidades, “sob outra lua”.
Eu nunca estive em sintonia com o amor. Talvez porque fosse muito mais apaixonante não tê-lo e ter sempre a sensação que algo faltava. Porque se algo falta, a gente vai atrás de uma forma ou de outra.
E assim eu me permitia permanecer sempre livre, para poder sempre estar em busca do que faltava.
Eu sempre tinha tudo, mas sentia que faltava ele, o amor.
Então eu fingia estar procurando-o, para sempre saber que ele estava faltando.
É muito mais fácil não amar ninguém do que precisar amar alguém. É muito mais fácil fugir do que encontrar. É muito mais fácil sabotar qualquer possibilidade de amor que continuar sempre a procurá-lo.
Quem procura acha? Às vezes acha, às vezes acha que acha. Mas se você acha que achou, então não é amor porque quando for amor de verdade, você não vai achar, vai ter certeza.

 

A indesejada

  
Quanto mais você corre para encontrar o fim dela parece que mais a encontra. 
Dizem para não correr atrás do que lhe pertence para que venha até você, mas ficando parado ela vai dominá-lo mais ainda.
Às vezes a queremos, às vezes ela é necessária, mas na maioria das vezes ela é dolorida e indesejada. 
Sua permanência em nossa vida deve ser curta, apenas para colocar certas coisas no lugar. Depois, ela tem que ir e fazer de sua partida um marco de algo extremamente feliz.
Desejo que só os que a mereçam a encontrem e que a esses ela não abandone.
Já aos demais, espero que ela se vá para bem longe e que nunca volte.
Nenhum ser merece sentir sua força, sua crueldade, sua indesejável presença.
Por fim, desejo que todas as pessoas de bom coração nunca mais se lembrem do amargo sentimento que ela traz: a solidão.