O homem que pensava demais

Sentado na ponta da ponte ele pensava…
Pensava se deveria mergulhar de cabeça naquele rio gelado ou esperar um pouco mais para a água esquentar.
Também pensava que se mergulhasse devagar poderia se acostumar com a água gelada aos poucos e criar coragem para mergulhar de cabeça finalmente. Resolveu esperar um pouco mais.
Enquanto esperava começou a pensar na sua vida; se deveria ter largado seu emprego para tentar a sorte em outro lugar, onde não conhecesse ninguém nem tivesse nada garantido.
Pensou se deveria ter ligado para aquela moça de quem sempre gostou e convidá-la para sair.
Com lágrimas nos olhos, pensou também se deveria ter procurado aquele amigo com quem tinha brigado e tentar uma reconciliação e que o orgulho não deixara.
O pensamento mais conflitante que o tomou foi se deveria ter tido filhos para agora estarem na beira da ponte decidindo se enfrentariam a água gelada juntos. 
Lembrou que queria ter feito aquela tatuagem que sonhara desde criança e que não fez porque não sabia se iria se cansar dela um dia.
Permaneceu lá, pensando em tantas coisas que quis fazer durante sua vida, mas que não fez porque seriam decisões sérias demais, algo definitivo demais, e porque era orgulhoso demais.
Tomar uma decisão qualquer e realmente tornar aquilo possível o amedrontava e então pensou que deveria esperar um pouco mais para ter certeza se seria o caminho certo a seguir.
E continuou pensando. Pensou tanto, por tanto tempo, que a água do rio congelou e não daria para mergulhar mais nela mesmo. E sendo assim, resolveu se levantar e talvez fazer algo em que tinha pensado durante esse tempo.
Teve um pouco de dificuldade para se levantar, sentindo o peso da idade no corpo. Ele pensou tanto que a vida passou e ele a perdeu lá, só pensando.
E o último pensamento que lhe veio à cabeça foi: eu devia ter mergulhado de cabeça, ao invés de só pensar em fazê-lo.
Antes de partir ele lhe pergunta: e você, vai mergulhar de cabeça ou esperar a água congelar?

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O passageiro

 
 
 
Essa é a foto do lanche real a que me refiro no texto
 
 
 
Quando me sentei ao lado dele pensei que fosse mais um desses homens mais velhos que gostam de mulheres mais novas, pois ele ficou me olhando muito. Mas com o tempo vi que era mais um olhar de curiosidade do que de interesse como homem. Era um senhor bem magro, com uns 80 anos ou mais.
Peguei meu livro e me entretive. Ele balbuciou poucas palavras, mas nem eu nem o outro passageiro ao lado dele demos atenção. Então passou o resto da viagem olhando para o próprio colo. Às vezes arriscava espiar meu livro. Um livro grande, de uma série de grande sucesso mundial, cheia de belas fotos. Esqueci-me que estava num avião e mergulhei no mundo medieval do livro, até que fui surpreendia pelo comissário anunciando o lanche da noite.
Abri o meu e devorava-o rapidamente pensando em retomar minha leitura. Então percebi que um barulho repetitivo acontecia ao meu lado. Era ele tentando abrir a embalagem do lanche. Demorou tanto pra conseguir abrir que os comissários já voltavam para retirar o lixo. Eu pensei em oferecer ajuda, mas fiquei com medo de envergonhá-lo. Esperei mais um pouco, com um aperto de solidariedade de ver aquele senhor não conseguindo abrir uma simples embalagem plástica. Pensei no quanto ele já devia ter feito pelo mundo e agora não conseguia abrir seu próprio lanche. E que seria dali para pior. Pobre senhor. Ainda olhando para o próprio colo enquanto escrevia sobre ele. Rapidamente pensei o que estaria fazendo indo para aquele destino. Teria alguém o esperando?  Esposa?  Filhos?  Netos? Teria ele ido visitar parentes em São Paulo e agora voltava para uma vida solitária?
Voltando ao episódio do lanche, ele comeu tão rápido que acabou antes de mim, e antes do comissário chegar ao nosso assento. E para se livrar da embalagem, amassou tudo junto com o copo de plástico, prendendo-os entre a mesinha e o encosto da poltrona da frente.  Como um triturador de material de reciclagem, ele apertava a mesinha contra o banco, amassando ainda mais o copo.
Estava eu apreensiva com o momento em que ele ia empurrar a cabeça da minha colega que sentava no banco na frente dele. Eu que pretendia ler meu livro até o final da viagem, entreguei os pontos e me rendi ao sono.  Não sem antes colocar meu aparelho dentário móvel que me permite um sono mais confortável.  Que ironia do destino, pois ele nem sequer tocou na sua dentadura, se é realmente que usava uma. E continuou contemplando seu colo o resto da viagem.
Não sei o que aconteceu com ele depois que desembarcamos. Eu estava ocupada demais esperando minhas bagagens e conversando com meus colegas de equipe, pois era uma viagem de trabalho, e não me lembrei mais daquele senhor que me pareceu tão solitário. Espero que estivesse indo ao encontro de alguém que estivesse pensando e esperando por ele. Também espero que ele tenha levado uma vida digna, para poder na sua velhice ter alguém que o queira bem. Porque por mais que seja triste uma velhice solitária, deve ser mais triste ainda passar uma vida inteira tomando atitudes que não farão com que as pessoas se lembrem de você no final dela.