Na calada da noite ela vem





Na calada da noite ela vem…

Eufórica, incontrolável, inevitável. Ela vem me tirar do meu descanso, do meu sono profundo, da minha paz.
Ela vem mas eu tento renegá-la. Tento não ceder, tento fazê-la ir embora e me deixar repousar, mas ela não vai. Fica lá, latente, teimosamente me perturbando. Luto o quanto posso, até me render. Então me levanto, acendo a luminária e me entrego. É rápida sua aparição. Mas depois que ela se vai, sei que ceder foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.
Ela me aparece durante o dia também, nos mais variados locais e situações, mas é à noite que ela consegue me perturbar. Porque é o momento que mais quero ficar em paz, só, esquecer de tudo e repousar minha mente de qualquer outro pensamento. Mas ela sempre surge nesse momento.
Hoje aprendi a não recusá-la e sempre depois que me rendo ao seu chamado, fico repleta de alegria. Jamais irei recusá-la novamente, pois sem ela não sou nada. Ninguém o é.
Todos os textos que escrevo aqui, vem dela.  De vez em quando, de uma forma ou de outra, ela aparece para todos. Sim, cada um tem a sua, a sua INSPIRAÇÃO.
Você achou que fosse o quê, fome?
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A chegada dele



Ele surgiu transformando tudo ao seu redor.

Ela sabia que após aquele momento sua vida nunca mais seria a mesma.
Toda sua rotina, suas preocupações, suas prioridades, tudo mudaria a partir de agora.
As festas, as baladas, a academia e o trabalho sofreriam mudanças com a chegada dele.
Sua vaidade estaria afetada para sempre.
Sabia que ele seria o primeiro, que outros viriam depois, e assim seria inevitável a multiplicação de suas preocupações.
A idade começaria a pesar. Ela sentia que algo mudava e começava a se apavorar.
Aquilo em que nunca tinha prestado atenção antes passara a latejar em sua mente.
Era o início de uma era em que precisaria sempre prestar atenção nele, pois caso não o fizesse, ele denunciaria a todos aquilo que ela nunca precisou temer antes.
Sim, sua vida mudaria sim.
Inevitavelmente, ele deveria sobressair mais que sua roupa, maquiagem, seu corpo. E mesmo que tudo tivesse impecável, a presença dele junto dela passaria a anular todo o resto.
Isso porque a primeira coisa em que as pessoas passariam a reparar seria nele, gritando, destoando-se de toda sua produção, de toda sua beleza, de toda sua vaidade.
Sim, ele presente iria parecer uma placa luminosa, gritando para todos os cantos que ela estava envelhecendo.
Até pensou em arrancá-lo de sua vida. Mas sabia que o carregaria de alguma forma e que ele sempre surgiria em sua cabeça.
Ele passou a ser prioridade até na sua lista de compras. Antes de pensar num novo batom, numa roupa nova, ou em um novo sapato; antes de qualquer outra coisa, ela precisaria pensar nele.
Então a partir de agora, seu primeiro item da prateleira passará a ser tintura para o cabelo. Para esconder o maldito primeiro cabelo branco…

Quem inventou você?


Você não me engana. Não me engana nunca.
Outros olhos não me mostram tudo que você me mostra.
Eu o vejo em todos os lugares. E você sempre me revela de formas diferentes: sob diferentes luzes, em diferentes lugares, de diferentes formas, com diferentes humores.
Você revela tudo de melhor e pior que há em mim.
Levo-o na lembrança, no meu carro, na bolsa. Sua presença está em todas as partes da minha casa, da minha vida.
Quando você está por perto não consigo resistir e volto meu olhar para você. Mesmo tendo medo do que vou ver muitas vezes, mesmo nos dias que não quero olhá-lo.
Você sempre vai mostrar aquilo que as pessoas não me mostram, não me dizem. Sua opinião é implacável. Chega a ser duro muitas vezes, mas encorajador em outras.
Não consigo viver sem você.
Dizem que você pode me dar azar, dizem que não devo ser tão dura comigo mesma ouvindo-o quando aponta os meus defeitos. Mas quando você me elogia, sou a mulher mais feliz do mundo.
Muitas vezes eu o odeio. E odeio mais ainda quando me vejo em você. Porém é também você quem mostra o que há de melhor em mim. E faz isso com todos, principalmente com as mulheres que cruzam seu caminho. Como pode ter tanto poder, ser tão forte? Afinal, quem foi que inventou você?
Sim. Você foi algo inventado, criado pela mão do homem para dominar a maioria das mulheres. Um algo tão poderoso, chamado por nós de…espelho.

O abraço

Você me aperta o peito; parece que vou explodir.
 Eu sinto você tão próximo e sei que você pode perceber cada singular batida do meu coração.
Você está tão íntimo a mim, tão grudado em minha pele, que seria impossível me separar de você agora.
Se eu correr, sei que estará me segurando. Se eu pular, estará me protegendo.
Eu sei o quanto está em mim agora, me abraçando fortemente. Tão forte que mal consigo respirar.
Você me envolve de tal maneira que não consigo te esquecer nenhum minuto deste longo dia.
Seu abraço começa a doer em mim agora e o que eu mais quero é me afastar de ti. Procuro desesperadamente uma saída, uma rota de fuga, e encontro.
Encontrei minha única salvação num banheiro da estação de trem e lá tive a certeza de que partirei para qualquer lugar sem você agora.
E me lembrarei que o próximo terá que ser superior a você.

Sim, eu prometo que a partir de hoje, irei comprar um número maior de sutiã.

Acabou

Acabou. Não era pra ser e eu não aceitava os sinais.
Quase te perdi no passado e você não correspondia às minhas necessidades como eu queria. Mesmo assim eu precisava de você.
Sem você não sou ninguém. Perco o rumo sempre.
Você me fazia me perder às vezes, mas no final eu acabava chegando aonde queria.
Não, não desejo felicidade pra quem te possui agora. Desejo tudo de mal, aliás. Pra quem te roubou de mim então, desejo a morte.
É isso mesmo! Quero que morra o filha da mãe do “nóia” que roubou meu gps…. Justo o gps…

Dominação

Ela abriu o livro mas não passou da primeira página.
Algo a fez perder o interesse, a concentração.
E naquele vai e vem do transporte público, o conteúdo do livro ficava cada vez mais distante.
Sua mente vagava, sua cabeça e seus olhos já não mais a obedeciam.
Esse “algo”, que demorei um pouco pra entender o que era, tomou conta dela.
Dominada, ela concordava, movimentando a cabeça brusca e enfaticamente, quase como num movimento servil.
Era algo que eu não conseguia aceitar. Eu estava muito incomodada, sentada ao seu lado, vendo-a ser submissa daquele jeito…
Então me lembrei que eu mesma já quase tinha cedido como ela certa vez, mas nunca com tanta intensidade.
Eu tive uma vontade incontrolável de dar-lhe um safanão e terminar com aquela agonia.
Quem sabe assim, ela batendo com a testa no apoio do ônibus, acabava com aquela cena patética de dominação.
Nossa, como é difícil controlá-lo.
Ele, o sono…