O mendigo

 
 
 
 
Sei lá porque ele entrou nessa, mas ele entrou. Não sei se ele era triste, ou solitário, ou desiludido da vida.
Ele me pediu um trocado e ao sentir seu cheiro de pinga pensei: nunca vou dar dinheiro para ele se embebedar. Uns passos adiante fiquei pensando: mas e se essa é a única forma de curar sua dor? Não, não deveria contribuir com esse “remédio”, mas poderia eu contribuir de outra forma? Poderia contribuir de alguma maneira para tirar sua dor? Sua tristeza? Sua solidão?
Sei lá o que ele sente. Não sei quantas lágrimas derrama, nem se tem mais lágrimas a derramar.  Quando as minhas próprias me caem dos olhos a única coisa que eu quero é algo que diminua as dores que as causam. E porque eu não poderia fornecer esse algo para ele? E se ele perdeu família, seu grande amor, seu lar e tudo que tinha na vida e bebendo é a única coisa que o faz esquecer?
É fato que outras coisas já perdeu há tempos: sua dignidade, a esperança, o afeto, sua honra. Não, não poderia julgá-lo. Porque não posso sentir a dor que ele sente. Nunca minhas dores serão iguais as dele. Nunca uma dor é igual para ninguém, por isso não podemos avaliar o antídoto que cada um encontra para curar as suas.
Quem sabe um dia ele encontre alguém que mude seu antídoto e faça suas lágrimas serem apenas de emoção ao se lembrar que algum dia, alguém se preocupou com sua dor e a curou para sempre.
Eu poderia, mesmo que sendo errado, curar momentaneamente sua dor, mas não o fiz.  Não voltei para lhe dar um trocado. Eu o deixei ali, com ela.

 

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O passageiro

 
 
 
Essa é a foto do lanche real a que me refiro no texto
 
 
 
Quando me sentei ao lado dele pensei que fosse mais um desses homens mais velhos que gostam de mulheres mais novas, pois ele ficou me olhando muito. Mas com o tempo vi que era mais um olhar de curiosidade do que de interesse como homem. Era um senhor bem magro, com uns 80 anos ou mais.
Peguei meu livro e me entretive. Ele balbuciou poucas palavras, mas nem eu nem o outro passageiro ao lado dele demos atenção. Então passou o resto da viagem olhando para o próprio colo. Às vezes arriscava espiar meu livro. Um livro grande, de uma série de grande sucesso mundial, cheia de belas fotos. Esqueci-me que estava num avião e mergulhei no mundo medieval do livro, até que fui surpreendia pelo comissário anunciando o lanche da noite.
Abri o meu e devorava-o rapidamente pensando em retomar minha leitura. Então percebi que um barulho repetitivo acontecia ao meu lado. Era ele tentando abrir a embalagem do lanche. Demorou tanto pra conseguir abrir que os comissários já voltavam para retirar o lixo. Eu pensei em oferecer ajuda, mas fiquei com medo de envergonhá-lo. Esperei mais um pouco, com um aperto de solidariedade de ver aquele senhor não conseguindo abrir uma simples embalagem plástica. Pensei no quanto ele já devia ter feito pelo mundo e agora não conseguia abrir seu próprio lanche. E que seria dali para pior. Pobre senhor. Ainda olhando para o próprio colo enquanto escrevia sobre ele. Rapidamente pensei o que estaria fazendo indo para aquele destino. Teria alguém o esperando?  Esposa?  Filhos?  Netos? Teria ele ido visitar parentes em São Paulo e agora voltava para uma vida solitária?
Voltando ao episódio do lanche, ele comeu tão rápido que acabou antes de mim, e antes do comissário chegar ao nosso assento. E para se livrar da embalagem, amassou tudo junto com o copo de plástico, prendendo-os entre a mesinha e o encosto da poltrona da frente.  Como um triturador de material de reciclagem, ele apertava a mesinha contra o banco, amassando ainda mais o copo.
Estava eu apreensiva com o momento em que ele ia empurrar a cabeça da minha colega que sentava no banco na frente dele. Eu que pretendia ler meu livro até o final da viagem, entreguei os pontos e me rendi ao sono.  Não sem antes colocar meu aparelho dentário móvel que me permite um sono mais confortável.  Que ironia do destino, pois ele nem sequer tocou na sua dentadura, se é realmente que usava uma. E continuou contemplando seu colo o resto da viagem.
Não sei o que aconteceu com ele depois que desembarcamos. Eu estava ocupada demais esperando minhas bagagens e conversando com meus colegas de equipe, pois era uma viagem de trabalho, e não me lembrei mais daquele senhor que me pareceu tão solitário. Espero que estivesse indo ao encontro de alguém que estivesse pensando e esperando por ele. Também espero que ele tenha levado uma vida digna, para poder na sua velhice ter alguém que o queira bem. Porque por mais que seja triste uma velhice solitária, deve ser mais triste ainda passar uma vida inteira tomando atitudes que não farão com que as pessoas se lembrem de você no final dela.