Engolindo pessoas

E assim ela foi, ano após ano, subindo um degrau.
Sabia que não brilhava naturalmente; que quando chegava ninguém notava sua presença. Sabia que ninguém pensava nela em momentos de carinho ou saudades.
Sabia que seu abraço não tocava nenhuma alma e suas raríssimas lágrimas não convenciam a ninguém. Seu coração batia em vão e seu toque era frio como o gelo. O gelo ao menos derrete em contato com o calor, mas ela…  nada fazia seu coração derreter. Era uma humana vazia de sentimentos.
As únicas coisas que faziam seu coração bater eram números: os números de relatórios que ela entregava depois de ter sido contratada para mudá-los. E que consequentemente mudavam também os números de sua conta bancária.
Então assim ela foi. Aumentando números, levando algumas pessoas consigo, derrubando outras. Assim ela seguiu, engolindo pessoas. Todos aqueles que estiveram ao seu lado nessa subida, em determinado momento da trajetória foram deixados para trás; quando ela não precisou mais deles.
Pessoas que poderiam acrescentar seus números de alguma forma foram poupadas e falsamente acomodadas em seu coração de gelo. Quando deixaram de somar aos seus números, ela os engoliu, tirando-os da sua frente.
Ano após ano ela continuou engolindo pessoas. Engoliu tanto que chegou um momento que ela estava só; tinha engolido todos ao seu redor, inclusive sua família. Nesse momento ela se deu conta de como tinha sido sua trajetória. Agora não lhe restava mais nada além dos números ali amontoados dentro dela. E ao invés de fazerem alguma diferença em sua vida, agora eles pesavam.

E ela já não tinha mais ninguém para ajudá-la a carregá-los, pois já tinha engolido todo mundo. Mas nem assim ela se abalou. A única coisa que a afetou foi o fato de que ela nunca mais poderia fazer aquilo que sabia fazer de melhor; que nunca mais poderia continuar engolindo pessoas!
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