Sonho maior

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Isso é um problema seu!

Não adianta eu tentar querer entender o seu problema para resolver o meu.
O seu problema é seu e só seu.
O problema do seu problema é quando ele vira um problema pra mim. Se você tem um problema, tem que resolvê-lo antes de se aproximar de alguém e causar um problema também na vida do outro.
Você pode tentar buscar a solução num ombro alheio; e o outro pode ter não só o poder, mas também prazer em ajudá-lo.
Agora o que você não pode é trazer um problema para alguém e não querer ajuda.
E se não quer ajuda lembre-se que o problema vai continuar sendo seu; somente seu.

Idas e vindas

 
 
 
 
 
É um entra e sai de gente, toda hora, sem parar.
Aqueles que você achava que ficariam para sempre se vão antes dos que deveriam ir. Aqueles que você nem imaginava entraram aos poucos, pegaram os seus lugares, fizeram sua história na sua vida e nunca mais partiram.
A realidade é uma só. Quem quer ficar fica; não tem jeito: sempre aparece, sempre se interessa, sempre está presente de uma forma ou de outra.
Claro que tem o fato de que você talvez possa não querer a presença desse alguém. Então ou sorrateiramente, ou diretamente, o mandamos embora. Agora, se vamos aceitando de mansinho a presença de alguém, se a presença, mesmo que na ausência, se torna importante, essa pessoa fica e para sempre. Na ausência também, porque uma pessoa pode ficar longe um tempo, mas quem é para sempre na nossa vida, nunca fica muito tempo longe de fato.
Assim é também o oposto. Às vezes nós queremos ficar na vida de alguém. Telefonamos, mandamos e-mail, tentamos marcar um encontro, falamos que estamos com saudades. Se essa pessoa não corresponde, um dia a gente também se vai. “Tá”  a gente quis ficar, mas o outro não quis. Fazer o quê? Partimos e pronto.
Mas quando é para ser, quando os dois corações querem ficar um perto do outro, eles ficam. Tenho amigos que moram longe, mas ainda vivem dentro do meu coração e eu do deles. E sempre que podemos nos encontramos. Meu irmão mora em Londres, mas falo com ele quase todos os dias. Tenho sobrinhos que são como irmãos, e irmãos e cunhados como pais.
Tenho amigas de anos, que mesmo que não nos falemos ou nos vejamos com frequência, nada vai nos separar. A vida é assim; escolhemos quem queremos que fique do lado da gente, assim como também somos escolhidos.
Sinto saudades dos amigos que eu tentei manter por perto, mas que não quiseram ou não puderam. Já quanto aos amores, não fico triste porque não deram certo; porque depois vieram outros amores e aquilo que eu disse antes faz muito sentido. Quem não quer ficar perto não merece ficar dentro do nosso coração. Se alguém não te quis tem outros que querem; simples. Assim como a gente também não quis outras pessoas.
O tempo leva todos mesmo. Só não leva quem realmente quer ficar. Muitos de quem sentimos falta também sentem falta da gente, então a gente retoma o contato, a amizade, o sentimento bom. Fortalecemos antigos laços, nos reaproximamos.
Se for sincero, é só voltar e pronto. Ou não é? Há erros perdoáveis, há mágoas que podem ser superadas, há afastamentos que podem ser revertidos. Desde que os dois lados queiram ficar.
Pode até levar um tempo, mas quem tem que ficar, fica.
E você, quer ir ou ficar?

 

Caminhos opostos

 
 
Não, nosso olhar não se cruzou.
Não, não trocamos sentimento algum, bem como nenhum contato.
Mas ele estava ali, bem na minha frente. Eu tentava fugir da sua presença, de um confronto, mas ele estava ali.
Parecia que acompanhava meus passos, vindo ao meu encontro.
Nossos caminhos eram opostos, mas fomos obrigados a nos cruzar, quase a nos esbarrar.
O encontro inevitável, eu tentei desesperadamente evitar. Assim como acredito que ele também.
Por isso talvez nossos olhares realmente não tenham se cruzado; porque não olhávamos na mesma direção, não queríamos seguir o mesmo rumo.
Estivemos no mesmo trem, mas ao desembarcarmos, ele foi para um lado e eu para outro, cada um seguindo sua vida.
Mas quem é (era?) ele afinal?
Não sei; um usuário qualquer do metrô de quem eu estava tentando desviar na plataforma…

 

O mendigo

 
 
 
 
Sei lá porque ele entrou nessa, mas ele entrou. Não sei se ele era triste, ou solitário, ou desiludido da vida.
Ele me pediu um trocado e ao sentir seu cheiro de pinga pensei: nunca vou dar dinheiro para ele se embebedar. Uns passos adiante fiquei pensando: mas e se essa é a única forma de curar sua dor? Não, não deveria contribuir com esse “remédio”, mas poderia eu contribuir de outra forma? Poderia contribuir de alguma maneira para tirar sua dor? Sua tristeza? Sua solidão?
Sei lá o que ele sente. Não sei quantas lágrimas derrama, nem se tem mais lágrimas a derramar.  Quando as minhas próprias me caem dos olhos a única coisa que eu quero é algo que diminua as dores que as causam. E porque eu não poderia fornecer esse algo para ele? E se ele perdeu família, seu grande amor, seu lar e tudo que tinha na vida e bebendo é a única coisa que o faz esquecer?
É fato que outras coisas já perdeu há tempos: sua dignidade, a esperança, o afeto, sua honra. Não, não poderia julgá-lo. Porque não posso sentir a dor que ele sente. Nunca minhas dores serão iguais as dele. Nunca uma dor é igual para ninguém, por isso não podemos avaliar o antídoto que cada um encontra para curar as suas.
Quem sabe um dia ele encontre alguém que mude seu antídoto e faça suas lágrimas serem apenas de emoção ao se lembrar que algum dia, alguém se preocupou com sua dor e a curou para sempre.
Eu poderia, mesmo que sendo errado, curar momentaneamente sua dor, mas não o fiz.  Não voltei para lhe dar um trocado. Eu o deixei ali, com ela.

 

O passageiro

 
 
 
Essa é a foto do lanche real a que me refiro no texto
 
 
 
Quando me sentei ao lado dele pensei que fosse mais um desses homens mais velhos que gostam de mulheres mais novas, pois ele ficou me olhando muito. Mas com o tempo vi que era mais um olhar de curiosidade do que de interesse como homem. Era um senhor bem magro, com uns 80 anos ou mais.
Peguei meu livro e me entretive. Ele balbuciou poucas palavras, mas nem eu nem o outro passageiro ao lado dele demos atenção. Então passou o resto da viagem olhando para o próprio colo. Às vezes arriscava espiar meu livro. Um livro grande, de uma série de grande sucesso mundial, cheia de belas fotos. Esqueci-me que estava num avião e mergulhei no mundo medieval do livro, até que fui surpreendia pelo comissário anunciando o lanche da noite.
Abri o meu e devorava-o rapidamente pensando em retomar minha leitura. Então percebi que um barulho repetitivo acontecia ao meu lado. Era ele tentando abrir a embalagem do lanche. Demorou tanto pra conseguir abrir que os comissários já voltavam para retirar o lixo. Eu pensei em oferecer ajuda, mas fiquei com medo de envergonhá-lo. Esperei mais um pouco, com um aperto de solidariedade de ver aquele senhor não conseguindo abrir uma simples embalagem plástica. Pensei no quanto ele já devia ter feito pelo mundo e agora não conseguia abrir seu próprio lanche. E que seria dali para pior. Pobre senhor. Ainda olhando para o próprio colo enquanto escrevia sobre ele. Rapidamente pensei o que estaria fazendo indo para aquele destino. Teria alguém o esperando?  Esposa?  Filhos?  Netos? Teria ele ido visitar parentes em São Paulo e agora voltava para uma vida solitária?
Voltando ao episódio do lanche, ele comeu tão rápido que acabou antes de mim, e antes do comissário chegar ao nosso assento. E para se livrar da embalagem, amassou tudo junto com o copo de plástico, prendendo-os entre a mesinha e o encosto da poltrona da frente.  Como um triturador de material de reciclagem, ele apertava a mesinha contra o banco, amassando ainda mais o copo.
Estava eu apreensiva com o momento em que ele ia empurrar a cabeça da minha colega que sentava no banco na frente dele. Eu que pretendia ler meu livro até o final da viagem, entreguei os pontos e me rendi ao sono.  Não sem antes colocar meu aparelho dentário móvel que me permite um sono mais confortável.  Que ironia do destino, pois ele nem sequer tocou na sua dentadura, se é realmente que usava uma. E continuou contemplando seu colo o resto da viagem.
Não sei o que aconteceu com ele depois que desembarcamos. Eu estava ocupada demais esperando minhas bagagens e conversando com meus colegas de equipe, pois era uma viagem de trabalho, e não me lembrei mais daquele senhor que me pareceu tão solitário. Espero que estivesse indo ao encontro de alguém que estivesse pensando e esperando por ele. Também espero que ele tenha levado uma vida digna, para poder na sua velhice ter alguém que o queira bem. Porque por mais que seja triste uma velhice solitária, deve ser mais triste ainda passar uma vida inteira tomando atitudes que não farão com que as pessoas se lembrem de você no final dela.

 

A Bela

A Bela sempre foi bela.
A Bela é bela por dentro e por fora.
Mas a Bela nunca se achou bela, então sempre precisou ficar atrás de uma beleza que ela já tinha.
E correndo atrás de sua beleza que ela não enxergava, a Bela conseguia uma forma ainda mais bela.
Mas como ser bela para a Bela nunca era o suficiente, ela ainda tentava ser mais bela, dia após dia.
E essa incansável busca pela beleza, irritava e incomodava às outras pessoas que a cercavam; que não a entendiam e a achavam fútil e vazia.
Mas a Bela no fundo é triste, precisa de atenção, então por isso ela quer sempre ser cada vez mais bela, achando assim que as pessoas vão amá-la mais.
Só que as pessoas já a acham bela e já gostam dela, porque conseguem enxergar a bela por dentro e por fora.
E na busca pela beleza, foi se transformando em algo que se perdeu. Ela agora, se esconde atrás da beleza, a colocando em primeiro lugar, e escondendo seu coração mais belo que sua aparência.
No fundo ela não precisa ser mais bela, só ser amada. E ela acha que sendo mais bela, ela vai ser mais amada.

Então sua forma tão bela ofusca sua beleza interior e assim ela não deixa que a amem de verdade pelo que ela é, pela beleza que tem dentro da Bela e não por ser simplesmente…bela.